quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Head Coach FCB - by Rodrigo Azevedo Leitão


Chelsea vs Barcelona, o 2º confronto: a beleza do jogo, a ingenuidade de Nuno Amieiro e a minha.

texto do professor Dr. Rodrigo Azevedo Leitão publicado originalmente na Universidade do Futebol (Maio/2009) 

O futebol é Arte e Ciência. Uma Arte que, abstrata, é bela de maneira diferente a cada olhar que a penetra. Uma Ciência que não é exata, porque nem toda Ciência é exata – e nem por isso deixa de ser Ciência.
Como diria o professor Alcides Scaglia (aqui espero não ser traído pela minha memória para poder ser exato e fiel a sua fala) para apreciar o futebol de hoje não podemos observá-lo com os mesmos olhos e pressupostos de ontem; para entender sua beleza precisamos avançar a novos paradigmas.
Olhar o jogo de futebol como fenômeno complexo não é trivial. Insistentemente grandes partidas e circunstâncias do jogo são analisadas sob a perspectiva dos óculos do ontem, que contribuem muito pouco para o entendimento da complexidade do jogo do hoje.
Para avançar a essa discussão e compartilhar um pensamento, aqui nesse ponto, passarei a falar do segundo jogo entre as equipes do Chelsea FC e do FC Barcelona, válido por uma das semi-finais da UEFA Champions League 08/09 (dando sequência então a uma idéia que iniciei no texto anterior a esse).
Antes, lembro que a primeira partida entre as duas equipes (na Espanha – e que terminou em zero a zero) foi motivo para diversas ondas de comentários. Algumas criticando o comportamento tático da equipe inglesa, desenhando-o como covarde, feio, o anti-futebol.
Jorge Valdano expôs o seguinte no jornal “A Bola” (de 2 de maio):
Foi surpreendente a quantidade de opiniões favoráveis que teve a estratégia do Chelsea: com perseguições individuais, centrocampistas de grandíssimo nível que não pisaram a área contrária, interrupções frequentes para interromper o ritmo do Barcelona... O negócio saiu-lhes redondo porque encontraram o 0-0 que procuravam. Só por isso, para certa crítica, já obtiveram a patente de equipa inteligente. O que me parece incrível é a pouca generosidade que temos para com as equipas que assumem o risco, o jogo, futebol grande. Só ganham o elogio quando ganham o jogo. Ao invés, os espectadores aplaudem os empates ainda que seja à custa de varrer o espetáculo”.
O futebol é surpreendente e ainda que possa passar desapercebido, talvez seja esse o aspecto do jogo que faça brotar nas pessoas, dos apaixonados aos especialistas, discursos em diferentes direções ao se referirem a um mesmo jogo.
Além do abismo sempre presente entre a interpretação de uma partida de futebol aos óculos dos especialistas comparada aos óculos do senso comum, há ainda uma inadvertida distância (muitas vezes tão grande quanto a anterior) entre o que passa pelas lentes daqueles que observam o jogo e descarregam seus argumentos amparados pelo discurso científico.
Mesmo pautadas na complexidade do jogo, muitas observações acabam por, sem perceber, promover análises simplificadas de fenômenos “não-simples”, em uma dimensão que por não ser compreendida por alguns nichos se mascara como uma visão complexa (pseudo-complexa !) do jogo.
Ainda sobre o 1º jogo entre o FC Barcelona e o FC Chelsea, Nuno Amieiro (um dos autores do livro Porque tantas vitórias – sobre o trabalho de José Mourinho) faz as seguintes colocações em seu blog:
Para mim, o lado táctico tem a ver com o jogo todo e, nessa medida, o primeiro elogio a ser feito teria de ser dirigido à equipa de Guardiola. Para mim, falar de táctica é falar de intenções e de interações e, neste sentido, o jogar do Barça mostrou (e tem vindo a mostrar, por vezes de forma excepcional) maior riqueza e complexidade táctica. Foi, por isso, aos meus olhos, muito mais táctico do que o do Chelsea. Basta ver o modo como a equipa responde, perto e longe da bola, à progressão com bola de Piqué pelo corredor central. Ou o modo como ocupa o espaço a atacar e faz a bola circular. Ou o modo como «acampa» no último terço e mete a bola a correr, rente à relva, na procura do espaço e do momento certo para tentar finalizar. Ou o modo como recusa cair na tentação do pontapé longo ou do cruzamento cego para dentro do «aquário». Ou o modo como responde à perda da posse de bola e, desse modo, poucas vezes é obrigado a «desmontar as tendas». Tudo isto revela critérios. Tudo isto é construção (táctica) do treinador.
Por isso, sim. Também acho que o Barcelona-Chelsea foi um jogo muito táctico. Mas, sobretudo, pelo que nos mostrou o Barça. Sabem como jogou? Então sabem do que falo, sabem o que é a Táctica para mim. Ela é o fio invisível que faz emergir aquilo que reconhecemos como traços marcantes do jogar de uma equipa”.
A riqueza de um jogo está na interação complexa entre as referências que tornam o jogar resposta eficaz para o cumprimento da lógica do jogo.
Ainda que algumas vezes em aparência treinadores e equipes adotem estratégias para cumprir objetivos intermediários, que estão menos próximos da lógica do jogo e mais íntimos de evitar o seu cumprimento por parte do adversário, não podemos perder de vista jamais que a busca de uma equipe é pelo jogar bem, e que isso não garante necessariamente a vitória.
É claro que a falta de clareza sobre o cumprimento da lógica do jogo leva jogadores e equipes ao “jogar bem estratégico” e não a um “jogar bem superior”, em que os méritos pelo desempenho estão no alcançar metas menores dentro do jogo e não no cumprimento de sua lógica.
Pois bem. Cheguemos ao 2º jogo entre as equipes do Chelsea FC e do FC Barcelona, agora na Inglaterra.
A equipe Londrina controlou boa parte do jogo (como no 1º jogo, ainda que divirjam alguns especialistas). Um controle sem bola que deu permissão ao FC Barcelona a ter um comportamento típico, mas em regiões não típicas ao seu “habitue” no campo de jogo. Em outras palavras a equipe espanhola manteve a posse de bola, circulando-a de uma lado ao outro, mas sem se aproximar de seu “alvo” ofensivo.
O Chelsea por sua vez apostou em transições ofensivas rápidas, com jogo vertical alongado, abrindo mão da posse da bola. Mas diferente do jogo anterior a equipe inglesa teve mais êxito na progressão em direção ao campo ofensivo nas jogadas agudas de contra-ataque (especialmente por ter conseguido recuperar mais bolas em regiões mais adiantadas do que no 1º jogo e por ter atacado efetivamente com um número maior de jogadores).
Vejamos alguns números do jogo:

Os padrões se aproximam bastante dos do 1º jogo em Barcelona. As mudanças de uma partida para outra estão principalmente nas referências de ocupação de espaço (bem como sua estruturação) utilizadas especialmente pela equipe do Chelsea FC, e pela mudança de comportamento operacional da equipe espanhola – contrária a seu comportamento habitual – nos minutos finais do jogo (e que ainda que para muitos tenha ganhado toques de “estratégia de desespero”, “ausência de tática” ou “coração na ponta da chuteira”, foi para esse que vos escreve mudança tática que deveria ter ocorrido desde os primeiros minutos de jogo).
Outra mudança com relação ao 1º jogo é que as alterações estratégico-operacionais proporcionaram um maior número de finalizações por parte da equipe do Chelsea FC quando comparadas ao jogo na Espanha, com grande parte delas ocorrendo dentro da área penal (grande área) – ao contrário da equipe do FC Barcelona que teve nesse 2º confronto a maioria das finalizações fora da área penal.
Vejamos no campograma que se segue, as regiões das finalizações:

Certamente muitas pessoas (dos especialistas ao senso comum) dirão que houve “justiça” no resultado do jogo, afinal classificou-se para a final da UEFA Champions League 08/09 a melhor equipe; aquela que melhor jogou futebol nos dois confrontos da semi-finais.
Eu prefiro dizer mais uma vez, que a equipe do FC Chelsea foi a equipe que controlou melhor os dois jogos. Não venceu porque controlar não significa dominar, nem influenciar, e portanto não garante vitória. Insisto; devemos tomar cuidado para não adequarmos teorias e construtos científicos à conveniência dos nossos argumentos quando deveríamos, pelo contrário, apoiarmos nossos argumentos aos construtos e teorias científicas.
O que sei ao certo, é que não existem verdades absolutas, e buscá-las pode ser um caminho, mas jamais um desfecho. Então, prefiro ver a beleza do jogo não com os óculos do passado, mas com aqueles que me permitam apreciá-lo, avançando a paradigmas que insistem em permanecer fincados nesse mesmo caminho; porque o presente não foi ontem.

*a reprodução do texto só está autorizada legalmente, se mencionados nome do autor e fonte virtual.

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